segunda-feira, 18 de maio de 2009

:: homo zappiens ::

Estudei na Universidade de Passo Fundo durante a minha graduação em Letras. Durante boa parte desses quatro anos, trabalhei no Centro de Referência de Literatura e Multimeios (meu querido "Mundo da Leitura"). O mais legal disso tudo foi participar ativamente de um dos maiores eventos mundiais destinados a uma das minhas maiores paixões: a literatura (garanto: não é exagero).

Agora, o porquê dessa paixão: desde que me conheço por gente - e minhas lembranças mais remotas são de uma Gabriela pequenina, ainda em Chapada (pra quem não sabe, cidade também pequenina do interior do Rio Grande do Sul) -, tive os livros como melhores amigos. O Rio Grande é bastante frio. Assim como o frio é (e continua sendo) marcante, as leituras em volta da lareira, ou do fogão a lenha, são ainda mais marcantes, principalmente quando se é criança. Então, lembro-me dos meus pais, o Ruben e a Angela, lendo e contando histórias interessantíssimas pra mim - todos em volta da lareira. E a Gabriela nem tão pequenina assim - já com nove, dez anos - começou a acompanhar sua mãe nas Jornadas Nacionais de Literatura. Sim, sou (orgulhosamente) filha de professores - pelo jeito, os únicos que não se orgulham dessa classe são os governos. Eu contava muito ansiosamente a passagem dois anos. Não só porque queria ser adolescente, mas também porque queria participar das Jornadas. E como participei! Lembro-me de uma fila interminável, ainda quando o evento era aqui pertinho de casa, no Boqueirão. Aliás, foi nesse ano que conheci = e conversei! - com Ana Maria Machado. Pra uma guria que devorou o "Isso ninguém me tira", pode haver algo mais marcante? NÃO. Não, mesmo. Anos depois, com a Jornada ocorrendo onde hoje é o Bourbon Shopping, conheci o Ziraldo. Sim, eu era fã do menino maluquinho. Em 2001, com o circo montado na Universidade de Passo Fundo, mais uma vez lá estava eu. Em 2003, aluna do terceiro ano do ensino médio, de novo. Em 2005, a grande mudança: a Gabriela apaixonada pelas letras, de participante, passou a se envolver diretamente na organização do evento. Perfeito, muito perfeito. Tudo o que eu mais queria. E isso se repetiu em 2009. Resumindo: minha paixão pela literatura - e pelas Jornadas - é de longa data.

Quando iniciei esta postagem, minha idéia era comentar sobre uma reportagem da revista "IstoÉ" desta semana, intitulada "Crianças, as campeãs de leitura". Lá pelas tantas, há a seguinte afirmação: "... ler para a criança é fundamental para a formação de uma sociedade afeita às letras. [...] dois em cada três leitores se recordam dos pais ou adultos envolvidos com livros em casa. Na mesma proporção, quem não tem esta lembrança da infância, também não desenvolveu o hábito" (p. 82). E quer prova melhor disso do que eu?!

Daí, um pouco mais adiante, me deparo com o seguinte: "Ler com música costuma causar estranheza em muitos pais e educadores, mas o hábito é apontado como uma das razões para a intimidade com as letras. É o que defende a pesquisadora de leitura e formação do leitor, Tania Rösing, professora da Universidade de Passo Fundo (RS). Na opinião dela, o mercado editorial está sendo assediado pelo mundo eletrônico e um não deve excluir o outro. "Os jogos de computadores têm narração, personagens, apresentam obstáculos e tempos distintos, o que é semelhante a um livro literário", diz Tania, coordenadora da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo (RS), uma das maiores feiras literárias do País" (aí, discordo: é muito mais do que uma feira; e outra: não é uma das maiores do país - é A MAIOR do país; única e insubstituível). E essa geração aí, nascida a partir dos anos 90, que os pesquisadores vêm chamando de "Homo Zappiens".

Além de coordenar a Jornada, a Tania também coordena o "Mundo da Leitura". Trabalhei lá, já diss, e aprendi muito. Como não homenagear, então, a criadora de duas coisas que marcam demais a minha vida?!

Ass.: Gabriela, filha, também, da Jornada.

terça-feira, 12 de maio de 2009

:: razões ::

É ano de dissertação. Tenho lido muito, afinal é pré-requisito, para qualquer pessoa que quer se dedicar à pesquisa, desenvolver certa familiariadade com o objeto a ser investigado.

Não sei quantas vezes já escutei frases do tipo: "Mas, afinal, o que tu tá pesquisando?!". E, pra cada pessoa, dou uma resposta meio diferente. Sinal de pouca familiariade com o assunto? Também - a insegurança é responsável pela outra metade da resposta. Não adianta: quer pesquisar, leia. Reflita. Escreva. Apague tudo. Fique com a imressão de que, a cada leitura, menos certezas você tem. Aliás, esqueça as "certezas": elas não existem. E reescreva tudo - várias vezes. É assim, né?!

Se alguém perguntar qual o lugar que me marcou durante a fase dos 11-16 anos, mais ou menos, respondo bem convicta: a biblioteca do Instituto Menino Deus. Eu passava as tardes lá. Lia, lia e lia. Manhã, tarde e noite. Sempre. Preferências: a série Vaga-Lume (clássica), Pedro Bandeira (e seus Karas... ah, como eu queria ter um Calu em minha turma - e ser tão ágil e bonita como a Magri!), Márcia Kupstas, Álvaro Cardoso Gomes (o Beto e a Lúcia Helena, definitivamente, marcaram a minha adolescência!), Fanny Abramovich, Marcos Rey (quanto suspense!), Ana Maria Machado... que fase!

Se alguém for ainda mais curioso e resolver me perguntar, além disso, o que eu mais estudei, ou melhor, o que eu mais gostei de estudar no ensino médio - também respondo, e bem rapidinho: Literatura.

Equação óbvia: leitura + literatura = Letras. "O quê?! Mas uma guria tããão inteligente vai fazer... Letras?!". Putz, como era doído (e ainda é) escutar isso. A diferença é que, se antes eu chorava, agora, rio. Então, fiz minha faculdade de Letras, trabalhei em um lugar único, aprendi bastante coisa, iniciei um mestrado, aprendi mais ainda, tenho a orientação dos meus sonhos... e agora estou dissertando. O quê?

LITERATURA JUVENIL. É evidente! Se as maiores recordações da minha adolescência remetem a livros juvenis e se durante a minha graduação inteira tive contato com autores infanto-juvenis, como ser diferente?

Pois bem. Adentrei em um campo sedento por pesquisas e, pior, praticamente estagnado. Dentre as poucas pesquisas sobre o gênero, a maioria dá conta da década de 70. O "hoje" não existe - pelo menos na teoria. Então, mais uma vez, bati o martelo: literatura juvenil CONTEMPORÂNEA. Quem? Fernando Bonassi, Adriana Falcão e Flávio Carneiro. Outra hora conto como cheguei até eles...

segunda-feira, 11 de maio de 2009

:: (pseudo)mundo acadêmico ::

Sabe aquela palavra que causa pânico, calafrios e aflição em mais de 90% dos concluintes de cursos de graduação? Eis um videozinho sobre a dita "monografia". O detalhe é que ele me lembrou certos discursos que tenho ouvido muitíssimo desde o ano passado. A bolsista aqui teve (e continua tendo) que assistir a algumas bancas de mestrado/doutorado, e o palavreado permanece o mesmo... os teóricos do momento estão em todaaasss! No final de algumas arguições, tem uma frase do Humberto que resume direitinho minha sensação:
"Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada!"
Triste...

Tá aqui, ó: http://www.youtube.com/watch?v=9VOPIrA2o8A

Hasta.

terça-feira, 21 de abril de 2009

:: dissertativa ::

Sem postar há tempos, o que não significa que eu não tenha me perguntado, várias vezes, o porquê de não voltar a escrever. O legal de blogar/flogar, pelo menos pra mim, é acessar meus escritos depois de um certo tempo. Alguns me causam raiva, e fico me perguntando como fui capaz de escrever tanta idiotice. Outros, me espantam positivamente. Mas ambos os sentimentos - raiva/certo orgulho - revelam várias Gabriela's. Pelo menos uma Gabi diferente por ano. No entanto, o que me importa, neste momento, é a Gabi do AGORA.

...

E a Gabi do agora passa 90% do seu dia pensando em uma única palavra: dissertação. Tenho uma pela frente. Se alguém me perguntar, hoje, como eu me imagino daqui uns dez anos, minha resposta será imediata: lendo, pesquisando, escrevendo, aprendendo, ensinando. Pra isso, alguma insitituição terá que me aceitar, seja pela via do concurso público, seja pela via da indicação. Para isto, me serão exigidos, no mínimo, alguns titulozinhos. O mestrado é o primeiro passo rumo a Gabi do futuro. Por mais que eu ainda esteja em diálogo com meu objeto de pesquisa, se, hoje, alguém me questionar o que eu almejo com minha dissertação, também não titubearei: quero fazer diferença. Para tanto, terei de superar algo que me acompanha desde o meu nascimento, creio eu: a insegurança. Há pouco, fui dar uma bisbilhotada em uma comunidade do Orkut, "Mestrado gera traumas?", e li certos depoimentos aterrorizantes. Gente que foi parar no hospital por causa da dissertação. Gente que, hoje, não dorme sem um Rivotril e ganhou uma companheira nada agradável, a dona gastrite. Exagero, será? Em alguns casos, pode até ser que sim. Pra eu não me incluir nesse infeliz grupo, tenho que, como às vezes fala meu pai, "confiar mais no meu taco". Os próximos posts, então, terão um efeito meio que catártico: relatarei os passos da escritura de minha dissertação para que, ano que vem, a releitura disso aqui me traga boas recordações - e saudade.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

:: pode parar! ::

Dizem que a coisa que eu mais faço é reclamar. Pode até ser.
O bom é que não fico reclamando do comportamento dos BBBs, do enredo das novelas e do cachorro da vizinha. Geralmente, reclamo bastante após ler algum jornal ou revista ou, ainda, ao ligar a televisão em determinados horários. Como hoje, ao meio-dia.
Como uma boa parcela dos gaúchos, também assisto ao "Jornal do Almoço". Não porque eu realmente queira assistir, mas porque meus pais determinaram que, durante o almoço, a televisão deve permanecer ligada - mas se, e somente se, for pra assistir ao dito jornal. Ok.
As notícias ditas "regionais", organizadas pela RBS de Passo Fundo, são, além de totalmente previsíveis (a pauta recorrente são assaltos, assassinatos, mortes no trânsito e outras fatalidades policialescas), risíveis. Hoje, por exemplo, nós, telespectadores, fomos convidados a conhecer o mais novo celeiro de "beldades" no Rio Grande do Sul: Chapada city.
Nada contra Chapada, muito pelo contrário! Passei os primeiros quatro anos de minha vida morando nessa cidade, meu pai é natural de lá, minha avó ainda reside lá, assim como alguns tios e primos. Além disso, sempre achei a cidade bem cuidada (nisso, tenho de concordar com a reportagem de hoje).
Pois bem: o que me irritou profundamente são as ditas "beldades" abordadas na matéria. A repórter fez questão de frisar: "... lindas, altas, magras, loiras e de olhos azuis". De fato, resquiícios da colonização alemã. Então, questiono o seguinte: quem, afinal, dita os padrões de beleza? Por que diabos todos continuam babando ovo pra loiras de olhos azuis? Até podem pensar que isso é puro recalque meu, com meus olhos e cabelos castanhos. Não é, não. Só fico pensando qual a reação de uma guria negra e pobre assistindo a tal reportagem. Deprimente. Até quando esse padrão eurocêntrico vai ficar ditando aquilo que é ou não "belo" na cabecinha de alguns cidadãos brasileiros, ainda (séc. XXI!) pobres colonizados?
No quadro seguinte, de responsabilidade da RBS de Porto Alegre, o alvo das atenções era uma espécie de cavalgada na beira de uma praia. Meu primeiro pensamento: após a passagem da tropa, quem limpará a sujeira que, inevitavelmente, pairará sobre a areia? Segundos depois, um dos tropeiros mostrou os cuidados que dispensava aos seus animais e, então, nós, telespectadores, fomos brindados com a bela imagem do tropeiro limpando/obturando os dentes de seu cavalo. Além de ser super indigesto (ao meio-dia, as famílias costumam estar almoçando), fiquei me perguntando qual seria a reação de uma guria (a mesma negra e pobre que assistiu à reportagem sobre as "beldades), cheia de cáries, sem a menor condição financeira de consultar um dentista, ao assistir a esse outro quadro.
Não faz muito, fiquei sabendo, via anúncio no mesmo jornal, que uma das pautas do "Jornal Hoje" seria a tal "etiqueta". Nas palavras da apresentadora: "Você sabe como usar corretamente os talheres? E o guardanapo? Saiba o que é "certo" e "errado" quando estiver à mesa!". Me diga lá, dona apresentadora: quem determinou esse "certo" e esse "errado"? Por que eu, Gabriela, brasileira, tenho de imitá-lo?
Daqui a pouco vou ler o jornal. E a revista. Resultado? Muita pauta, na certa! Aguardem as próximas "reclamações". Ass.: a reclamona.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

:: sobre os últimos tempos ::

Antes de mais nada, o "tempos" do título equivale a dias - que estão parecendo meses (de verão, ainda por cima!).
(pausa pra suspiros)
Voltei.
(um dia eu explico o que mais me faz suspirar nesse país)
... e quem mais eu amo nesse mundo.

Sei que o meu atual estado de espírito/humor não interessa a ninguém, mas é inevitável: ui, que angúúústia. Estou esperando por duas coisas. Cada vez que minha caixa de entrada do Yahoo anuncia um novo e-mail, tenho tremedeiras, arritmia e calafrios. Depois, ao perceber que tudo não passa de spams malditos, esbravejo. O segundo motivo da minha espera independe de e-mails. É só uma instituição atualizar sua página, mais precisamente na guia "concursos". Por enquanto, nada de concreto. Até lá, não prometo um único post decente e digno de leitura.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

:: o Mia ::

Grande parte da população brasileira está de férias. :)
...
Grande parte da população brasileira não lê. :(
...
"Será bom ter em mente que esse problema tem história. A gente olha para o cotidiano dos países mais afeitos à leitura, na Europa ou mesmo aqui na América - podem ser as grandes cidades dos Estados Unidos ou Buenos Aires, logo aqui abaixo -, e sente um ciúme cósmico. Porque lá, em qualquer parte, no trem ou no café ou na praça, tem alguma pessoa, entre 12 e 120 anos, com um livro aberto diante de si, com cara compenetrada, e possivelmente mais feliz do que nós próprios, porque está passando seu tempo numa atividade prazerosa e, por que evitar o termo?, civilizada, mais civilizada do que nos permitem as atividades em que a gente consome nosso raro tempo na vida real das cidades brasileiras".
...
(o fragmento acima está entre aspas obviamente porque não é de minha autoria. São palavras do Fischer. Para quem não o conhece, apresento: Luís Augusto Fischer, professor de Literatura na UFRGS, baita escritor e pensador, com quem tive o prazer de ter aulas no último semestre)
...
Então, mesmo com essa estatística tão adversa (a de que a grande maioria dos brasileiros foge dos livros), aqui vai uma dica de leitura - afinal, há sempre uns "loucos" por aí que costumam conciliar férias com livros, não é?! Para esses (além dos meus cumprimentos!), lá vai:



O Mia Couto é um escritor (sim, ele é homem) moçambicano. Moçambique, pra quem não lembra, fica na África e, assim como nós, teve a infelicidade de ter sido colônia portuguesa durante séculos. Hoje, olhamos para trás com um olhar mais descontraído e até fazemos graça de parte da nossa desgraça. A diferença é que alguns colocam tudo no papel. Nesse seleto grupo, alguns criam obras-primas. Caso do Mia e seu O outro pé da sereia. Boa leitura! :)